De Bike No Meio da Tempestade

Saímos para mais um daqueles pedais longos para treinar e passear ao mesmo tempo. O roteiro escolhido foi contornar a maior lagoa de Santa Catarina, a Lagoa de Imaruí, no sul do estado, num total de 110 km de pouca altimetria.

A rota planejada para o percurso: 110 km de pouca altimetria.

Com uma análise rápida na previsão do tempo que mostrava vento nordeste predominante ao longo do dia, acabamos por decidir realizar o percurso no sentido horário, partindo do bairro Nova Brasília, em Imbituba. Assim poderíamos desfrutar um pouco da velocidade de um pedal na beira da BR com vento a favor.

A lagoa de Imaruí. Foto: Alisson Tolotti

E rapidamente avançamos e chegamos na região de Cabeçudas, em Laguna, para cruzar a lagoa através da Ponte Anita Garibaldi.

O grupo parado na beira da BR-101, antes de cruzar a ponte Anita Garibaldi. Foto: Alisson Tolotti

Na saída da ponte tivemos um dos pneus cortados por um caco de vidro, o que nos rendeu um belo atraso.

O corte era muito grande e o pneu, de tecnologia tubeless, não conseguiu reter o líquido para estancar o vazamento e tivemos que improvisar um remendo para poder andar até achar uma borracharia.

Foi uma verdadeira “obra-prima”, utilizando-se de borracha de pneu velho e elástico de cabelo, mas que nos possibilitou achar uma solução mais definitiva com um borracheiro.

A obra-prima que estancou o vazamento do pneu. Foto: Alisson Tolotti

Depois que arrumamos o pneu cortado, saímos da BR-101 para o acesso ao município de Pescaria Brava. O trecho começou em asfalto, passando para um bom calçamento e finalmente se transformou em estrada de chão.

Seguíamos avistando a lagoa ao longe, passando por uma área rural com belas propriedades por todo o percurso. Sem longas subidas, a estrada seguia num sobe e desce suave, às vezes ladeada por campos, outras, por moradias.

Os campos à beira da lagoa de Imaruí. Foto: Alisson Tolotti

A medida que avançávamos no terreno, o vento nordeste foi sumindo e a temperatura do dia foi aumentando, até o dia se transformar num calor escaldante. E o mal estar com a temperatura foi agravando pela ausência de postos de reabastecimento, pois embora na estrada houvesse várias “vendas” ou mercadinhos, TODOS estavam fechados.

No meio da tarde conseguimos reabastecer com água graças a simpatia dos moradores locais, que nos comentaram sobre a existência de uma cachoeira não muito distante, onde haveria uma lanchonete. E lá fomos.

Embora o local fosse desprovido de beleza natural (era um açude!), podemos nos alimentar e repor nossas energias. Ficamos ali por um tempo e decidimos partir quando vimos que o tempo estava mudando e que uma tempestade estava se armando.

Ficamos bastante impressionados quando nos aproximamos novamente da Lagoa: vinha do sul uma nuvem muito densa, numa tempestade assustadora que avançava em nossa direção.

Pedalando em direção à tempestade. Foto: Alisson Tolotti

Mesmo assim, como ainda faltavam quase 50 km para terminar o percurso, continuamos pedalando na esperança que chegaríamos ao destino antes da tormenta.

Mas logo a frente um morador local gritou “Busquem um abrigo que isso é pedra!”.

E a tempestade avançou rapidamente, fazendo que buscássemos abrigo no primeiro local seguro que avistamos: uma parada de ônibus.

O nosso bunker: um ponto de ônibus. Foto: Alisson Tolotti

O nosso “Bunker” acabou se mostrando um local bastante seguro. Todo de alvenaria, inclusive o teto, fechado na parte voltada para o sul e com muradas laterais que nos protegiam parcialmente.

Dali vimos aquela nuvem negra “engolir” toda a paisagem, fazendo sumir os morros e a lagoa a nossa frente.

A nuvem preta que engoliu a paisagem. Foto: Alisson Tolotti

Primeiro veio o vento firme, quente, seco e com muita areia, mesmo vindo sobre a lagoa. E o dia escureceu às 16:30 horas.

E o dia escureceu as 16:30 hs! Foto: Alisson Tolotti

Depois o vento ficou mais forte, com rajadas violentas, que trazia junto uma chuva de pingos grossos.

Vimos as árvores próximas sacolejarem violentamente e as telhas de uma casa próxima começarem a levantar. A qualquer instante parecia que o telhado ia ser levado inteiro.

Veio um barulho forte de algo que tinha caído sobre o telhado do nosso abrigo e vimos que era uma tampa enorme de uma caixa d’água que tinha voado e parado ali. Umas telhas caíram na parte da frente, mas nada nos atingiu ali dentro. Felizmente o nosso abrigo era firme.

Depois disso, passou uma mesa branca de plástico rolando pela estrada.

Em meio a tanta tensão falávamos besteiras para relaxar e até uma vaca voando achávamos que viria, lembrando do filme Twister.

O tempo deu uma clareada e o vento mudou de direção. Foto: Alisson Tolotti.

Num dado momento o tempo deu uma clareada e o vento mudou de direção, pegando de lado em nosso abrigo. A chuva nos atingia, deixando todos molhados, mas ainda era relativamente seguro. Nos abaixamos para tentar nos proteger do frio e de algum objeto que pudesse vir voando.

E o vento continuou forte por muito tempo, parecia que não acabava nunca.

Não sabemos dizer exatamente por quanto tempo ficamos ali, a impressão que tínhamos que era uma eternidade. Mas na verdade a tempestade durou cerca de uma hora.

Quando o vento se acalmou resolvemos continuar nosso percurso, mesmo com a chuva que ainda caía. E vimos uma paisagem desoladora.

A estrada cheia de folhas caídas após a tempestade. Foto: Alisson Tolotti

Muitas casas parcialmente destelhadas, muitas árvores caídas, muitos galhos de árvore caídos na estrada e nos campos. Nos locais mais habitados os moradores saíam para a rua para ver os estragos que a tempestade havia feito.

E a medida que avançávamos mais e mais casas danificadas, árvores caídas e estragos. De repente veio um aroma bom no ar, e vimos que era o resultado dos eucaliptos que haviam se quebrado ou caído.

Pedaços de telhas que voaram de casas próximas. Foto: Alisson Tolotti

Mais a frente, perto da lagoa, muitos pássaros voavam em círculos, como que perdidos ao verem as árvores no chão.

Quando chegamos na cidade de Imaruí começou uma trovoada forte e novamente pegamos um abrigo. Mas dessa vez a chuva já foi bem mais tranquila, diríamos que “normal”, principalmente se comparada com a primeira fase da tempestade…

No centro da cidade vimos mais estragos, mas não tínhamos o que fazer.

Toda a região estava sem energia elétrica, e passamos por vários carros da empresa de energia trabalhando (ou seria o mesmo de um lugar para outro?). Vimos que os celulares também estavam sem serviço e não tinha como avisar em casa que estávamos bem.

Estávamos ainda a quase 30 km de nosso destino e resolvemos seguir num ritmo firme pelo asfalto. Revezávamos entre pedalar na pista e no precário acostamento e assim finalmente chegamos ao nosso destino, onde nosso veículo se encontrava inteiro, num estacionamento cheio da sujeira que tinha voado.

Voltamos para casa realmente impressionados com a força da tempestade e seus efeitos, quase esquecendo do calor que tínhamos passado mais cedo naquele dia.

Depois, mais tarde, ficamos sabendo que a tormenta tinha provocado amplos estragos em municípios da região.

Felizmente, nada nos aconteceu.

Mas foram fortes emoções.

Escrito por

Natural de Florianópolis, onde vivo por opção e sou ciclista por diversão. Através da bicicleta encontrei uma forma de ver o mundo e me manter saudável.