Travessia dos Lençóis Maranhenses de bicicleta: de fat bike em um labirinto de dunas e lagoas

 

Nós cruzamos os Lençóis Maranhenses  – o mais famoso campo de dunas do Brasil e o maior da América do Sul – com nossas fat bikes.

Foram cem quilômetros em um verdadeiro labirinto de dunas e lagoas, num cenário surreal que mais parecia cena de filme de ficção.

Esse foi o trajeto percorrido:

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Os 100 km de percurso percorridos

E essa aventura é contada através do texto e das imagens a seguir.

Sobre os Lençóis Maranhenses

Os Lençóis Maranhenses são uma formação geológica única, fruto do encontro de fatores bem conhecidos: muita areia disponível no litoral, que se movem de acordo com um regime de vento de direção constante, os alísios, que se revezam em intensidade com um regime de chuvas sazonal e intenso.

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Dunas de areia muito branca

Com duas estações bem definidas na região, o inverno com muita chuva e pouco vento possibilita o acúmulo de água em extensas lagoas de água doce entre dunas. Quando chega o verão, as temperaturas aumentam, param as chuvas e o vento começa a soprar forte, secando gradativamente a água das lagoas e movendo as dunas com mais intensidade.

E esse ciclo vai se repetindo, alterando a paisagem e fazendo as dunas avançarem gradativamente para o interior.

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Para visitar os Lençóis em todo o seu esplendor é necessário ir na época da alta temporada deles, durante os meses de julho e agosto. Noutras épocas corre-se o risco de ver as lagoas todas secas.

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses abrange toda a área de dunas e mata próxima, ocupando uma área gigantesca de 1565 km2, equivalente ao tamanho da cidade de São Paulo ou mais de duas vezes a área da Ilha de Santa Catarina, onde está Florianópolis, a ilha da magia. É uma área muito grande.

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As lagoas eram gigantescas, às vezes emendando uma com outra

O Parque está distribuído por alguns municípios no Maranhão, sendo os dois mais famosos Barreirinhas e Santo Amaro. No extremo leste fica a foz do rio Preguiças, onde tem uma pequena vila já estruturada: Atins, o paraíso dos kitesurfers.

Além da sede desses municípios existem diversos pequenos povoados espalhados pelas bordas dos Lençóis (Betânia, Travosa, entre muitos outros) e dois oásis povoados bem no meio do campo de dunas: Baixa Grande e Queimada dos Britos.

Um Itinerário de travessia

Morando no Sul do Brasil e tão longe dos Lençóis fizemos muita pesquisa para poder efetuar a travessia com a maior segurança possível.

Lemos muitos relatos de pessoas que já haviam feito a travessia a pé e descobrimos que existe uma rota turística já bem consolidada de travessia dos Lençóis. Bastante facilitada por um percurso pela praia (que muitos fazem de carro), não nos interessou seguir essa fórmula já bem comercial, pois queríamos fazer toda a travessia por dunas.

Cena de filme
A paisagem parecia um cenário feito em computador

Estudando e analisando detalhadamente as imagens de satélite decidimos inicialmente que iríamos partir da cidade de Barreirinhas e entrar no campo de dunas a partir de um local bastante visitado por turistas: a Lagoa Bonita. Dali o pedal seguiria praticamente em linha reta por cima das dunas até a Baixa Grande.

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Embora não apareça na foto, o vento estava sempre presente

O plano inicial parecia bastante exequível.

Os preparativos

Decidimos levar nossas fat bikes para o Maranhão (Nordeste) por já estávamos acostumados com elas.

Nos dias que antecederam a viagem tivemos que providenciar uma série de coisas para executar nossos planos: filtro de água portátil, GPS, carregador solar para baterias, bolsas de selim para bagagem(marimbondos), barraca de emergência, reparos da bike, etc.

Foi necessário otimizar a bagagem da travessia ao mínimo necessário para que seu peso  não nos impedisse de pedalar em areia fofa, o que resultou em marimbondos pesando três quilogramas.

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Nossos marimbondos foram carregando somente 3 kg

Barreirinhas

Chegamos em Barreirinhas, nosso ponto de partida para acertar os detalhes finais de nossa travessia.

Acabamos mudandos o nosso ponto de entrada nos Lençóis Maranhenses para a Lagoa Azul, devido o preço exorbitante que nos pediram pelo fretamento até a Lagoa Bonita (o mesmo valor do deslocamento de São Luís a Barreirinhas). Assim faríamos de bike os 10 km para entrarmos no campo de dunas. De lá seguiríamos até a Lagoa Bonita e seguiríamos a rota original.

Depois, mais tarde, pagaríamos caro por essa economia financeira.

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Não parecia real o que víamos na frente de nossos olhos

A partida

Partimos de nossa pousada em Barreirinhas, equipados e confiantes de nossos planos.

Era início de setembro e estava adentrando o verão deles. A previsão do tempo era de sol entre nuvens, com temperaturas variando de 26 a 35ºC e vento fortes e constantes em torno de 20 nós para todo o período da travessia.

Estrada de acesso a Lagoa Azul
Pedalar na estrada foi mais difícil que pedalar nas dunas

 

Após um pequeno trecho de asfalto cruzamos o rio Preguiças em barco da prefeitura, dali para frente seria quase uma linha reta na estrada de areia até a Lagoa Azul.

A estrada por entre a vegetação é muito mais uma trilha de areia muito fina, que durante a estação seca é muito fofa por ser remexida constantemente pelos veículos 4×4 que transitam por ali transportando turistas.

A areia é mole, como dizem no Maranhão, mas a estrada foi muito dura conosco. Tivemos que fazer inúmeras paradas para descansar e retomar a pedalada.

Areia mole mas estrada dura!
Areia mole mas estrada dura!

Ainda assim brincávamos nos maldizendo por ter economizado o dinheiro do veículo até aquele ponto. Teria valido cada centavo, para não chegarmos cansados e um pouco atrasados ao nosso ponto de entrada dos Lençóis Maranhenses: A Lagoa Azul.

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Em muitos trechos as lagos pareciam rios de tão compridas

O primeiro impacto

Assim que chegamos no campo de dunas subimos pedalando a primeira Duna a nossa frente e lá de cima paramos para admirar o que vimos.

Nos preparativos da viagem lemos muitos relatos, vimos muitas fotos e vídeos, percorremos os caminhos através das imagens de satélite. Mas NADA disso nos preparou para o que encontramos.

Dunas e lagoas a perder de vista
Dunas e lagoas a perder de vista

Ficamos pasmos com a imensidão que se abriu a nossa frente. Olhávamos incrédulos para as várias direções, onde dunas gigantescas se intercalavam com lagoas enormes de água azul ou verde a perder de vista.

Era um misto de choque e admiração: tudo era grandioso e lindo. Mas não estávamos preparados para a escala dessa beleza. Não tem imagem que prepare para aquela magnitude.

Talvez o nosso choque tenha sido tão grande por saber que iríamos mergulhar nas entranhas daquela vastidão intimidante de dunas e lagoas com nossas bicicletas.

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Estar nos Lençóis é como estar inserido em um cenário surreal

Tudo aquilo era realmente impactante, mas estávamos onde queríamos estar.

Depois de alimentados e mais recompostos do primeiro contato, verificamos nosso mapa esquemático, definimos uma direção no GPS e adentramos em nossa grande aventura.

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Para todos lugares que se olhava eram dunas e lagoas

Navegando em um labirinto

Durante os preparativos da viagem localizamos no Google Maps todos os pontos que serviriam de referência e eventualmente de rumo, que foram plotados em um aparelho de GPS. Além disso, levamos conosco uma visão aérea impressa do mapa dos Lençóis com todos os pontos marcados.

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Um verdadeiro labirinto: o trecho inicial do percurso

Definimos um ponto no primeiro oásis onde queríamos chegar e fomos.

As barcanóides encadeadas
As barcanóides encadeadas

A partir daí, o GPS nos dava o rumo, a localização atual e a distância para o destino, mas eram os ventos alísios, com sua direção constante de leste e o sol poente que nos dariam a direção.

Rastros na água
Rastros na água

Fomos corrigindo a direção mais a esquerda ou direita do oeste com uma pequena “biruta” improvisada no guidom de nossas bikes – um fio de lã que dançava na direção do vento (a fita que os velejadores usam para trimar as velas).

E fomos seguindo para o nosso destino no meio do labirinto de dunas e lagoas que são os Lençóis Maranhenses.

Nas proximidades da lagoa do peixe
Nas proximidades da lagoa do peixe

Pedalando nos Lençóis Maranhenses

Na parte mais interior do parque as dunas foram se tornando muitos brancas, a ponto de no horário de sol a pino a visão ficar bastante prejudicada pela extrema claridade refletida da areia branca, nos impedindo enxergar muito longe.

Subíamos aquelas montanhas de areia com a sensação que o campo de areia era infinito até o horizonte, sem lagoas. Mas sabíamos que terminaria em algum ponto a frente.

Dunas a perder de vista
Dunas a perder de vista

Cada subida de duna reservava uma nova surpresa no topo, pois lentamente apareceria o limite onde a duna começava a descer repentinamente e se descortinaria uma nova lagoa. E essa nova lagoa podia ser gigantesca ou pequena, funda ou rasa, verde, azul ou algum tom amarelado, ou poderia até estar seca.

E o ciclo se renova
No Verão deles (Segundo semestre) as lagoas chegam a secar completamente

Durante vários pontos de nossa jornada do primeiro dia fomos observados do céu  por inúmeros aviões que passavam com voos panorâmicos, tão comuns aos visitantes do parque. Ficávamos imaginando a surpresa daquelas pessoas ao encontrarem dois ciclistas, de capacete e tudo, no meio daquela imensidão branca.

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Não vimos pássaros lá no meio dos Lençóis

O sol foi inclemente e a temperatura era muito alta. Mas os ventos alísios estavam sempre soprando forte, o que ajudava a aliviar.

Beira de lagoa erodida pelo vento
Beira de lagoa erodida pelo vento

Paramos algumas vezes para nos refrescar nas lagoas, outras vezes para efetivamente mergulhar e aproveitar a água cristalina.

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Depois de um tempo no sol intenso nem tirávamos mais as roupas e sapatos para nos refrescar nas lagoas.

E fomos avançando naquele mosaico de dunas e lagoas, sempre em estado de êxtase pela beleza do local. E de tempos em tempos parávamos para admirar a grandiosidade do entorno, a paisagem surreal, o fato de estarmos sozinhos naquele local paradisíaco.

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Quando chegamos na proximidade do oásis da Baixa Grande o sol se pôs, mas não pudemos admirá-lo com a deferência que devíamos pois logo a noite chegaria.

A Baixa Grande é um verdadeiro oásis no meio dos Lençóis Maranhenses, abaixo do nível das dunas, cheio de lagoas e vegetação. E do alto,  não conseguimos avistar o nosso possível local de pouso – o local era muito maior que podíamos imaginar, com quilômetros de extensão.

Baixa Grande
Baixa Grande

Fomos contornando o limite do mato já com o farol da bike aceso pois a noite caiu rapidamente. Continuamos subindo e descendo dunas, tentando achar algo que nos indicasse o caminho, e nada.

Uma noite de lua nova nos Lençóis Maranhenses
Estrelas e nebulosas na noite dos Lençois Maranhense

Já imaginávamos que teríamos que dormir nas dunas, usando a barraca de emergência em alumínio que havíamos levado (que acabamos descobrindo não ser apropriada para um local de vento forte).

 

Eis que, quando já estávamos perdendo as esperanças, encontramos dois galhos de árvore com um pedaço de isopor em cima de cada, como balizas identificando uma entrada. E naquele local vimos pegadas humanas e marcas de pneus de quadriciclos e um caminho se abriu no meio do mato.

Fomos seguindo a pequena trilha e depois de algum tempo começamos a ouvir um “toc-toc-toc” de um gerador de energia. Seguimos mais confiantes até nos depararmos com uma pequena casa onde algumas pessoas olhavam incrédulas para aqueles seres que ali chegavam.

Havíamos chegado na casa da Dona Regina, em Baixa grande.

A casa da Dona Regina
A casa da Dona Regina

Baixa Grande

No oásis da Baixa grande moram umas poucas pessoas, que já moravam na região antes da criação do Parque. Elas vivem da pesca, da criação de animais (cabras e bovinos) e algumas casas funcionam como ponto de apoio e hospedagem (em redários) para as pessoas que cruzam o parque.

A Dna Regina e o marido vivem na Baixa há 28 anos, mas faz somente dois anos que recebem pessoas. Ele nós não conhecemos, mas estavam com ela o neto Zaquiel (16), a cunhada Maria de Jesus e o sobrinho Guilherme (23). Além deles estava o guia Lelé, que nos ajudou a quebrar o gelo dessa chegada inusitada, e um casal de franceses.

Bóris e Guilherme nas Lagoas da Baixa grande
Bóris e Guilherme nas Lagoas da Baixa grande

 

Todos estavam muito surpresos por nos verem chegar ali de bicicleta, a noite, sem guia e pelo caminho que consideram mais complicado. Mas percebendo que estávamos com fome, Dna Regina nos ofereceu:

-Se vocês não tiverem pressa, posso matar uma galinha e preparar uma janta.

Rindo, aceitamos. Imagine: tínhamos acabado de chegar, estávamos cansados e famintos e a oferta soou como música. Não havia a mais remota possibilidade de sair para procurar outro lugar!!!

Naquela noite decidimos que seria melhor aproveitar a manhã do dia seguinte para descansar e conviver um pouco com as pessoas daquele lugar tão autêntico e especial.

Fat bike na Baixa Grande
Fat bike na Baixa Grande

 

Ficamos por ali conversando com Dona Regina e Dona Maria, que nos encantaram por sua acolhida. Aliás, todos no oásis da Baixa Grande foram muito especiais com suas histórias de vida, jeito de ser e modo de viver.

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Somente depois do almoço, quando o sol já havia amenizado um pouco é que nos despedimos de todos, com uma pontinha de tristeza , nos deixando com vontade de voltar.

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O branco da duna chegava a atrapalhar a visão em horário de sol forte

E seguimos nosso caminho nas dunas.

Entre dois oásis

Saímos da Baixa Grande no sentido norte, num percurso relativamente até o próximo o oásis.

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Os galhos secos indicavam que um dia teve mata, depois estiveram cobertos pelas dunas e agora voltavam a aparecer

Descansados e já um pouco experientes fomos pedalando com liberdade nas incontáveis possibilidades de caminhos que o labirinto oferecia, tendo o vento a nos ditar a direção.

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E em meio aos galhos secos a vida volta a aparecer

Nessa região cruzamos por várias lagoas secas e também o leito seco do Rio Negro com suas águas cor de ferrugem.

Cruzando o Rio Negro
A água escura forma desenhos no leito seco do Rio Negro
Deixamos nossas marcas nas lagoas que passávamos
Deixamos nossas marcas nas lagoas que passávamos

Embora fosse um atalho para seguirmos em linha reta adiante passávamos com muito cuidado pois cada travessia de trecho úmido podia esconder uma das armadilhas dos Lençóis: a areia movediça.

A areia movediça

Primeiro o terreno começava a grudar os pneus, forçando parar. E quando descíamos o chão rachava e afundávamos, como nos filmes de Tarzan de antigamente!

Areia movediça
E o solo rachava e a gente afundava na areia movediça

Algumas vezes eu afundei até o joelho, me deitando pedindo ajuda para o Bóris me tirar daquela situação e ele também se viu na mesma situação várias vezes. Numas delas ele afundou até a cintura.

A duna que canta

Em um determinado ponto de nossa travessia, desci pelo lado inclinado do imenso paredão de areia.

Logo nas primeiras passadas comecei a ouvir um som que não quis acreditar de princípio. Virei o rosto em diversas direções, para ter certeza que não se tratasse do barulho de minhas passadas ou do vento em minhas orelhas e só daí tive certeza: As dunas estavam cantando!!!!

Uma duna que canta
A camada superficial da duna escorre com as passadas.

Gritei, “Bóris! Essa duna canta! Bóris, ela canta!!!!”

Mas ele pareceu não me dar bola (depois, mais tarde, ele me falou que achava que eu estava delirando por causa do sol quente). Ele ainda demorou um pouco para descer, até ouvir também. E ficou maravilhado.

A duna que canta
A duna que canta

Era um som que vinha de dentro das dunas, das entranhas daquela montanha de areia e que ocorria quando a areia escorria na superfície. Um som grave, um som divino, um som hipnótico. Lembra um pouco a tonalidade de um violoncelo em ressonância…

Já tínhamos conhecimento da ocorrência desse fenômeno em umas poucas dunas no mundo, mas sabíamos que não havia registro no Brasil. O fenômeno foi descrito inclusive por Marco Polo em suas viagens… e agora por nós.

Parece que só ocorre com um tipo específico de grão em condições climáticas adequadas. E aqueles sons só ouvimos naquela única tuna em toda a nossa travessia dos Lençóis Maranhenses.

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Ficamos ouvindo os sons que vinham de dentro da duna

 

Ficamos ali fazendo a areia descer e ouvindo aquele som.  Tentamos gravar o som, mas não deu certo. Aliais, deu tudo errado, e não conseguimos fazer um registro sequer do som das dunas.

Depois que voltamos para casa, entramos em contato com o ICMbio e passamos as informações da localização. Eles demonstraram interesse e contaram que nunca havia sido relatado um caso de dunas cantantes nos Lençóis. Pediram mais detalhes pois essa informação seria repassada para os pesquisadores da área.

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Encontramos somente uma única duna que canta em toda a nossa travessia.

 

Infelizmente, nosso tempo já estava curto e tivemos que seguir.

Chegando na Queimada dos Britos

Depois de um tempo caminhando começamos a ver pegadas humanas e de cabras, num grande “vale” e rapidamente chegamos nas beiradas da Queimada dos Britos.

Chegando na Queimada dos Britos
Um verdadeiro “vale” de dunas que levava a Queimada dos Britos

Novamente nos aproximamos dos limites da vegetação e fomos contornando para tentar avistar os locais de pouso na extensa área de mata.

Para achar as casas bastaria identificar onde estão os coqueiros, que foram plantados e se destacam em altura. Até encontramos uma primeira, mas não achávamos o caminho de entrada.

E nessa busca contornamos um trecho grande da Queimada, mas fomos recompensados pelo visual das grandes cadeias barcanóides que podíamos avistar no entorno.

Também bem lá longe, vimos o mar.

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As grandes cadeias barcanóides se formam devido a direção constante do vento

E fomos revivendo um pouco o drama do dia anterior enquanto o sol começava a baixar…

Até que finalmente vimos marcas no meio do mato marcas da presença de pessoas e descemos, indo parar em um caminho por entre os cajueiros e que seguiria até o fim do Oásis da Queimada dos Britos.

Queimada dos Britos e dos Paulos

A Queimada dos Britos é o segundo grande oásis dos Lençóis Maranhenses, bem mais povoado que a Baixa Grande, onde moram em torno de 200 pessoas, todos meio parentes da família Britos original que deu o nome do local.

Seguindo o caminho entre os cajueiros encontramos uma primeira casa onde conversamos um pouco com os moradores. E fomos passando por outras casas, algumas com muitas crianças que olhavam impressionadas para as nossas bicicletas.

A grande Avenida da Queimada dos Britos
A grande Avenida da Queimada dos Britos

Passamos pelo local que parecia uma pequena escola e mais a frente algumas pessoas nos indicaram o nosso destino: a última casa, na Queimada dos Paulos, como eles chamam aquele local dentro da queimada.

O redário da Dona Maria de Jesus, esposa do Bizik
O redário da Dona Maria de Jesus, esposa do Bizik

O redário da Dona Maria de Jesus, esposa do Bizik

Fomos muito bem recebidos pela Dona Maria de Jesus, a cunhada Fernanda e muitas crianças. A casa, típica, com cobertura em folhas de buriti e com o grande redário ao lado já oferecia a comodidade de um chuveiro para tomar banho.

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As comunidades dos Lençóis usam cerca fechada isolando as propriedades dos animais que criam soltos do lado de fora

No outro dia, pela manhã, após o café da manhã caprichado voltamos para as dunas, não sem antes nos despedir da carinhosa acolhida.

Fernanda (esq), Dona Maria de Jesus (dir) e as crianças
Fernanda (esq), Dona Maria de Jesus (dir) e as crianças

Evitando as Emendadas

O acesso da Queimada para as dunas foi bem gradual, inicialmente pela estrada no meio da vegetação e que depois desembocou na trilha bem marcada pelos quadriciclos ao lado de uma lagoa.

Saindo da Queimada dos Britos
A água da lagoa contrastava com a areia branca da grande duna

 

Numa curva nos distanciamos da trilha e seguimos nosso caminho em linha reta subindo a primeira grande duna, assim evitando o encontro com pessoas no percurso.

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Os Maçaricos eram vistos somente nas bordas externas dos Lençóis

Não que tenhamos nos transformados em ermitões, mas simplesmente por que queríamos continuar vivendo aquela sensação de imensidão e isolamento que os Lençóis Maranhenses possibilitava.

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A paisagem das dunas muito brancas e gigantes lembram as imagens da Antártida

E não demorou muito para estarmos novamente com aquela sensação de surpresa ao se abrir uma nova lagoa no alto de uma duna e se descortinar toda uma nova paisagem. E belas lagoas cheias se abriram nesse trecho, com água muito cristalina.

As dunas mais fofas que já encontramos foram nos Lençois
As dunas mais fofas que já encontramos foram na região dos Grandes Lençóis, próximo a Betânia
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Com uso de filtros podíamos consumir a água das lagoas

E continuamos escolhendo nosso caminho e nos orientando principalmente pelo sol e pelo vento. Tínhamos que nos manter mais a esquerda do poente, para evitas a grande lagoa das Emendadas, de difícil travessia.

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E quando estávamos já nas bordas dos Lençóis Maranhenses com vegetação nos deparamos com a Lagoa de Betânia e não vimos como cruzar para chegar ao nosso destino.

Tínhamos nos desviado um pouco de nosso objetivo final e tivemos que contornar uma boa área de mangue para chegar ao nosso destino.

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Existe uma espécie de tartaruga que somente existe na região dos Lençóis, a Pininga.

Foi nesse trecho do parque que encontramos as dunas mais altas de toda a nossa travessia (e também muito fofas), e que dificultaram em muito a pedalada. Mais tarde ficamos sabendo que essa área do parque era conhecida como “Grandes Lençóis”, exatamente pelas montanhas de areia.

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Várias vezes o sol forte nas dunas brancas atrapalharam a visão

Chegarmos na praia na beira da lagoa de Betânia onde haviam diversos carros de turismo estacionados – era a fronteira entre os Lençóis e a civilização.

Podíamos considerar que havíamos concluído nossa travessia dos Lençóis Maranhenses, sem guias ou veículos de apoio. Mas o pedal nas dunas dos Lençóis Maranhenses ainda não havia acabado.

Betânia

Da praia da Lagoa Betânia pegamos uma pequena trilha que nos deixou na beira de um pequeno balneário do Rio Alegre, onde dezenas de pessoas se banhavam e se divertiam.

O Rio Alegre em Betânia
O Rio Alegre em Betânia

E um silêncio se fez no local enquanto fazíamos a travessia num barco, com fat bikes e “fantasiados de ciclistas”, sob os olhares curiosos dos banhistas.

Ali almoçamos em um restaurante e depois uma multidão se aglomerou para conversar, incrédulos do feito de nossa travessia.

Dormimos aquela noite mais a frente, no redário Novo Horizontes (da Lindalva), onde fomos muito bem recebidos.

O local fica numa bela propriedade e fomos recebidos por Júnior, o jovem filho do proprietário. É ele quem administra o local, com desenvoltura e atenção profissionais.

Ali pudemos conviver um pouco com a família proprietária e conversar sobre a vida na beira dos grandes Lençóis.

De Betânia a Santo Amaro

No outro dia, por iniciativa do Júnior, fomos de barco pelo Rio Alegre para chegar no local que adentrarmos novamente nos Lençóis em direção ao nosso destino final, Santo Amaro.

Júnior guiando o barco pelo Rio Alegre
Júnior guiando o barco pelo Rio Alegre
Voltando de barco para os Lençóis Maranhenses
Voltando de barco para os Lençóis Maranhenses

E logo estávamos envolvidos novamente na imensidão dos Lençóis Maranhenses.

Esse trecho foi curto, apenas doze quilômetros e já não estávamos mais tão isolados. Podíamos ver a mata e uma antena ao longe. Em diversos lugares encontramos pegadas e marcas de veículos nas dunas.

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E quanto mais nos aproximávamos da cidade de Santo Amaro mais víamos sinais das pessoas. Cruzamos com algumas em veículos de transporte turístico, em quadriciclos e até caminhando.

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Em algumas lagoas dos Lençóis existem peixes, que ninguém sabe como sobrevivem à época das lagoas secas.

Foi uma lenta adaptação de retorno à civilização, ao mesmo tempo que aos poucos nos despedíamos daquele lugar mágico e maravilhoso. A areia, o vento, as lagoas, a paisagem de tirar o fôlego. Isso ficará para sempre em nossa memória.

Chegando em Santo Amaro do Maranhão
Chegando em Santo Amaro do Maranhão

E as dunas terminaram num local onde haviam coqueiros, a árvore que simboliza a presença humana na região.

Havíamos chegado a Santo Amaro do Maranhão.

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E os ventos Alísios sopraram forte durante toda a nossa travessia

Epílogo

A imensidão dos Lençóis e a sensação de isolamento nos fez ficar conosco mesmos, numa sensação de interação total com o meio ambiente.

Ali nos sentimos infinitamente pequenos em um ambiente inóspito, ali sentimos a força da natureza, a presença constante do vento que tudo transforma na região. Sentimos a força do sol que traz vida e também maltrata e o ciclo da água que tudo renova.

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Imensidão e isolamento, são duas palavras que bem definem a travessia dos Lençóis Maranhenses

Essa força incrível da natureza poderia nos ter embrutecido, mas a recepção e o convívio das pessoas que ali vivem nos amaciou, nos fez relaxar e de alguma forma sentir de verdade o que é vive naquele grande mar de areia.

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Voltamos nos sentindo felizes e satisfeitos com o que vimos e o que vivemos. Ficamos numa sensação de querer voltar, de querer viver tudo aquilo de alguma forma novamente e quem sabe ir até mais longe.

Missão cumprida: Travessia dos Lençóis Maranhenses
Missão cumprida: Travessia dos Lençóis Maranhenses

 

FIM

 

Informações Adicionais:

 

Dunas Cantantes:

https://climatologiageografica.com/dunas-de-areia/

https://www.bbc.com/portuguese/geral-40583058

 

 

O trajeto percorrido:

Clique aqui para ver detalhes na imagem de satélite: Wikiloc – Travessia Lençóis Maranhenses de Bicicleta

 

Registros dos pedais no Strava:

Travessia Lençois Maranhenses – completo

Travessia Lençóis Maranhenses – parte 1

Travessia Lençóis Maranhenses – parte 2

Travessia Lençóis Maranhenses – parte 3

Travessia Lençóis Maranhenses – parte 4

 

 

 

 

Escrito por

Natural de Florianópolis, onde vivo por opção e sou ciclista por diversão. Através da bicicleta encontrei uma forma de ver o mundo e me manter saudável.

2 comentários em “Travessia dos Lençóis Maranhenses de bicicleta: de fat bike em um labirinto de dunas e lagoas

  1. Que top Vânia, ainda me lembro de vc no vale europeu sofrendo muito no inicio da carreira . Agora uma ciclista experiente e aventureira. Que legal. Parabéns e muitos pedais para vc. O relato e fotos são profissionais ( aceita encomenda ) kkkk. Grande abraço. Alexandre Pawlusyk

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    1. Nossa Alexandre obrigada pelas palavras! A travessia dos Lençóis foi uma experiência incrível para a gente, desde o planejamento até o pedal em si. Local fantástico, uma das grandes maravilhas da natureza. Quanto ao pedal no Vale Europeu foi bem marcante para mim também, pois foi um desafio muito grande na época. Mal sabia passar uma marcha na bike, imagine ter que encarar um circuito com tanta altimetria? Teu apoio foi essencial naquele pedal para eu não ter encerrado minha “carreira” ciclística precocemente! Um grande abraço e felicidades! Vânia

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