Travessia do Campo dos Padres de bicicleta: de fat bike no ponto culminante de Santa Catarina

Pedais em tempos de pandemia

Pedalar em locais isolados ou de difícil acesso sempre foi algo que nos atraiu. Mas, em época de pandemia da covid-19 isso ficou cada vez mais importante como forma de isolamento e de prevenção à doença.

Fronteiras fechadas, viagens desmarcadas e bateu a vontade de realizar velhos planos não tão longe de casa e o projeto de Travessia do Campo dos Padres de bicicleta foi desengavetado.

O Campo dos Padres de bicicleta: de fat bike no ponto culminante de Santa Catarina

Reza a lenda que o Campo dos Padres foi um dos últimos refúgios dos padres jesuítas quando de sua fuga da perseguição pela coroa espanhola, carregando todo o seu tesouro…

Se é verdade que eles passaram ali com um baú de ouro, eu não sei.

Mas tenho certeza que o local é um grande refúgio da natureza, sem estradas e com várias barreiras naturais. É uma região selvagem, onde não mora ninguém. Uma vasta área de campos de altitude e floresta de araucária, delimitada por montanhas e os precipícios da Serra Geral e com muitos poucos pontos de acesso.

É nesse local que ficam 8 dos 10 morros mais alto de SC, inclusive o ponto culminante do estado, o Morro da Boa Vista, com 1823,59 metros.

Ali, o tempo pode mudar de um céu aberto e de ampla visão para nevoeiro muito denso muito rapidamente, como um imenso lençol branco que encobre tudo: A Viração. Um verdadeiro fantasma que tudo engole dificultando a localização até de guias experientes, e que faz a temperatura despencar abruptamente.

Não bastasse o apelo paisagístico e histórico, o Campo dos Padres é um verdadeiro paraíso para quem busca isolamento, pois o local continua sendo acessado somente a pé ou a cavalo. E mais recentemente, de bicicleta.

E é esse desafio da travessia feita por mim, Vânia Elza e meu marido Bóris, que é relatado nesse texto.

Travessia do Campo dos Padres de bicicleta

A região do Campo dos Padres fica na parte mais alta da Serra Geral e tem alguns pontos de acesso.

Com várias experiências na região, passamos a ter certa familiaridade com o mapa do local e vislumbramos um percurso de travessia de bicicleta.

Tínhamos a intenção de fazer um trecho longo, entrando pela subida menos difícil, a do Espraiado, cruzando toda a região de sul para o norte e descendo por Paraíso da Serra, em Bom Retiro.

Planejamos fazer a Travessia do Campo dos Padres em fat bikes, em dois dias, com guia de apoio à cavalo – o Nei – um antigo amigo que fizemos em outra visita ao local, e que conhece aquela região como poucos.

O Nei se criou na região de entrada do Canion do Espraiado e trabalha com o gado no Campo dos Padres.

Escolhemos as fat bikes pois já havíamos estado no local com bicicletas mountainbikes (MTB) e sabíamos bem a quantidade de pedras e charcos que teríamos de lidar. E acabou se revelando como a escolha certa.

Com a rota definida e com que equipamento seria realizada, o verdadeiro desafio começou.

Do portão de entrada ao Canion do Espraiado

A Travessia iniciou cedo, através do portão de acesso ao Espraiado, em Urubici, seguindo pela estrada em direção as montanhas, inicialmente acompanhados pelo riacho e pelos belos paredões de pedra.

O que antes era um difícil caminho de pedras, hoje virou uma estrada que qualquer veículo motorizado consegue subir com relativa facilidade, mas que ainda é um desafio para se fazer de bicicleta.

Embora a estrada seja agradável nos primeiros quilômetros, logo se torna uma grande escalada dificultada pelas curvas inclinadas.

E todo o esforço da subida é recompensado pela vista espetacular do canion espraiado, uma longa extensão de terra com uma falha de centenas de metro, que nos lembra do quão somos pequenos comparados à imensidão da natureza.

E o Canion apareceu majestoso depois da difícil subida

Ficamos ali por algum tempo admirando aquela vastidão da natureza, não sem ouvir algumas histórias de gente que ficou perdida devido à viração, o fantasma que atormenta os aventureiros da região.

E é fácil entender porque a viração ganha ares mitológicos, pois ela se relaciona diretamente com o ambiente. Dependendo do lugar ela só “frustra” a expectativa, pois esconde para si toda aquela beleza. Mas em outros, ela traz uma ameaça grande, pois termina todo senso de direção num lugar sem estradas.

E o fantasma da viração nos atormentou por toda a travessia.

Do Cânion do Espraiado até a Casa do Arno

O primeiro dia de travessia do Campo dos Padres de bicicleta foi marcado pela subida ao Cânion e pela passagem pela floresta, subindo e descendo morros, revezando trechos pedaláveis com outros nem tanto.

E saímos da estrada de acesso ao Canion do espraiado para efetivamente começar a trilha para a Travessia do Campo dos Padres de bicicleta.

Logo após a saída da estrada, a trilha começa com uma ligeira descida, gramada, pontilhada de pedras e cheia de arbustos.  Mas a frente vem uma subida e outra descida. E seguimos assim por esse caminho, que em alguns pontos se transforma em banhados ou atoleiros.

Onde não se pedala, se empurra, simples assim. Sem perder tempo ou sem ficar lamentando. Alguns poucos metros a frente sobe-se novamente na bicicleta e pedala.

Nesse percurso por entre a mata de araucária em alguns trechos vislumbra-se a mata de Xaxim – árvores altamente ameaçadas pela extração predatória. Aqueles xaxins, daquele tamanho devem ter mais de 150 anos.

Em outros pontos da trilha, mais a frente, encontramos búfalos, com cara de poucos amigos.

A trilha é marcada por muitas pedras, raízes e árvores caídas.
Em alguns trechos é uma trilha gramada entre as árvores (Nesse ponto encontramos o Márcio, o capataz da fazenda do Arno).

E a comitiva foi seguindo ainda na trilha, um pouco fechada, com árvores caídas, muitas raízes aparentes e pedras no caminho até chegar numa área mais aberta, cheia de vassourinhas onde avistamos pela primeira vez nosso local de pernoite.

E depois de mais alguns atoleiros e muitas vassourinhas, no meio da tarde chegamos na cabana.

E depois de muitas pedras e banhados, foi a vez das vassouinhas E finalmente avistamos a cabana onde dormiríamos.

Uma pernoite no Campo dos Padres

Embora tivéssemos bastante tempo livre nesse primeiro dia, decidimos “ficar por casa” para descansar para a difícil empreitada do dia seguinte. Assim pudemos admirar cada detalhe daquela linda casa, de construção rústica, em madeira bruta e com muros de taipa.

Aproveitamos o tempo livre para saber também um pouco mais sobre a lida com os búfalos e os cuidados da fazenda nesse local isolado. E após “um dedo de prosa” deitamos cansados, para cedo recomeçarmos no dia seguinte.

Márcio, o capataz da fazenda, e o Nei com a égua que nos acompanhou na travessia do Campo dos Padres de bicicleta.

Pedalando no ponto culminante de Santa Catarina

No segundo dia da Travessia do Campo dos Padres a paisagem muda muito, para efetivamente cruzarmos os campos de altitude.

Em tempos de pandemia, era um privilégio poder estar ali, num local tão isolado em contato com uma natureza intocada e selvagem e, ao mesmo tempo, em contato mais profundo consigo mesmo.

É fácil entender de onde vem tanta pedra para fazer esses muros de taipa, o chão é sempre coalhado de pedras.
E no Morro do Cemitério, com a araucária solitária, estão os túmulos de três padres…

Mas, nesse ponto o cansaço físico já começava a se apresentar e carregar nossas bicicletas morro acima não era uma tarefa fácil. E não bastasse o cansaço físico a nos incomodar, o fantasma da viração nos rondava de forma constante.

Passamos um dia inteiro assombrados por ela a nos espreitar naquela altitude, se divertindo às nossas custas.

É um caminho onde não descobrimos a paisagem – ela se impõe sobre nós – numa escala completamente diferente do que estamos acostumados em trilhas “normais”, nos deixando materialmente conscientes do nosso tamanho.

De caminhos de pedra a travessia de córregos, charcos e banhados, teríamos também que realizar verdadeiras escaladas para chegar ao ponto culminante do estado. Uma paisagem estonteante, aberta e vasta, mas difícil de transpor.

A Geodésia do morro conhecido hoje como Morro da Boa Vista tem o nome original do local, o Morro Bela Vista do Guizoni, numa confusão de nomes criada pelo IBGE.
as fat bikes no Topo de Santa Catarina – o Morro da Boa Vista.

E a viração é realmente um fantasma bem temperamental: teve o capricho de fechar o Morro da Boa Vista justamente quando nos dirigíamos para lá. Mas, também, teve a boa bondade de se afastar e permitir que aproveitássemos a paisagem quando chegamos ao topo, para logo depois nos “correr” lá de cima, ameaçando fechar nosso caminho.

E a paisagem grandiosa naquele lugar é sempre presente. A figura retórica de que o Campo dos Padres é o teto do estado é constantemente lembrada, pois a todo o momento se descortinam cenários com grandes e profundos horizontes. Tanto horizontais quanto verticais!

Descemos do Morro da Boa Vista cruzando vários outros trechos de pedra, charcos e banhados e chegamos à beira da “estrada”, onde nosso guia seguiu seu caminho de volta.

Do alto do Morro do Boa Vista pode-se avistar o Morro do Chapéu (Bela Vista do Guizoni) e todo o percurso de volta, Isso enquanto a viração não guarda pra si toda essa beleza.

A Estrada do Campo dos Padres

O que chamam de “Estrada”, desta parte do percurso, é bem marcada, mas muito diferente do que convencionaríamos chamar com esse nome. Primeiro um caminho gramado, pontilhado de pedras. Depois, um caminho numa laje de pedra, pontilhado de grama. Até, por fim, um caminho de pedras.

A viração acaba propiciando uma nova perspectiva de desafio, pois todo aquele charco, pedras, e caminhos difíceis parecem apenas meras dificuldades frente a algo que realmente tem e traz uma dimensão bem maior que de problemas no caminho. Pois a real dificuldade não é o caminho (que é terrível), mas o maior problema seria não enxergar para onde ir.

Nesse ponto nos despedimos do guia e pegamos “A estrada”

Por isso chegar à estrada foi algo magnífico, pois era quase a certeza que o manto branco não nos roubaria o caminho de casa.

Mas como em um filme épico, cruzamos a estrada o mais rápido que pudemos, com a viração quase pegando em nossos calcanhares, “apagando” o caminho de pedra por onde passávamos e “engolindo” o guia que deixamos para trás, dificultando seu percurso de retorno pra casa.

Mas faltava ainda cruzar o Morro do Chapéu (Bela Vista do Guizoni), o terceiro mais alto do estado. E ali vimos verdadeiramente o que eram as pedras do caminho.

A subida para o Morro do Chapéu era toda de pedra.

Descendo do Campo dos Padres

A escalada foi duríssima, a travessia exaustiva, mas todo o custo da Travessia do Campo dos Padres de bicicleta foi completamente recompensado pela estrada de descida para Paraíso da Serra. Um percurso lindo à beira do desfiladeiro, bem pedalável e o mais agradável – em descida!

Quilômetros e quilômetros descendo em meio a uma natureza belíssima e singular.

Não tínhamos mais o fantasma da viração a nos assombrar, embora o dia estivesse terminando e logo a noite logo cairia. E fomos descendo, descendo, descendo…

Chegamos a Paraíso da Serra ainda com a luz do dia, satisfeitos por termos completados bem o nosso desafio.

O Campo dos Padres é um lugar que se pode atravessar, a pé, a cavalo e, também, de bicicleta!

Chegar na igrejinha de madeira de Paraíso da Serra é a certeza que concluímos a nossa travessia do Campo dos Padres de bicicleta.

Atenção: O Campo dos Padres fica localizado em propriedades particulares. É necessária autorização prévia dos proprietários para realizar a travessia.

Informações complementares

Registro no Strava:

https://www.strava.com/activities/4226293713

Permissões de acesso:

Arno, proprietário da fazenda búfalo da neve: 48 99617-7552

Escrito por

Natural de Florianópolis, onde vivo por opção e sou ciclista por diversão. Através da bicicleta encontrei uma forma de ver o mundo e me manter saudável. Todos os textos e fotos desse site são originais. É proibida a cópia ou reprodução total ou parcial do conteúdo aqui divulgado. Todos os direitos reservados.