DE FAT BIKE NA PAISAGEM MARCADA PELO HOMEM DO SAMBAQUI

Os Sambaquis na Paisagem

O litoral de SC possui um enorme conjunto de sítios arqueológicos que se impõe, e marcam a paisagem: os Sambaquis.

Sambaqui do Morro da Roseta, na praia de Ypuã em Laguna SC

Em nossos pedais de Fat Bike ao longo do litoral nos deparamos com dezenas deles nos lugares mais inusitados: no meio de locais alagados, no topo de morros de difícil acesso, no meio das dunas, etc. E também nos mais variados tamanhos. Desde diminutos montes, à gigantes como o Garopaba do Sul que com seus 25 metros de altura e mais de 200 metros de diâmetro é considerado o maior Sambaqui do mundo.

O gigantesco Garopaba do Sul, considerado o maior sambaqui do mundo. Jaguaruna – SC.
No meio de um lago, entre dunas escondidas, o enigmático sambaqui da Lagoa dos Bichos. Laguna – SC.

Esse texto é sobre esse incrível povo.

A busca por respostas sobre este homem do Sambaqui

Além deste conjunto de Sambaquis, Santa Catarina possui vários museus etnográficos e arqueológicos que abordam o tema dos Sambaquis, sendo três voltados com mais ênfase para o tema:

     Museu do Homem do Sambaqui – Florianópolis

     Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville – MASJ

     Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC (MARQUE) – Florianópolis

E são justamente os incríveis e importantíssimos acervos destes 3 museus que nos colocam em contato com o imaginário de um povo que viveu aqui há milhares de anos e acabam enriquecendo e aguçando o olhar sobre o nosso litoral. Tanto para o passado longínquo quanto o presente, e servem de suporte para inúmeros estudos arqueológicos que ainda buscam entender uma história que não pode ser contada; ela tem de ser reconstituída a partir de ‘pontos de informações’ que são os artefatos, ferramentas, esculturas, esqueletos, etc.

Imaginem a imensa e desafiadora tarefa dos arqueólogos em tentar enxergar num passado tão longínquo com tênues indícios.

No alto do Morro do Céu, o grande sambaqui branco se destaca no fundo azul. Laguna – SC.
A região de Laguna e Jaguaruna no Sul do estado concentra grande quantidade de sambaquis, marcando a paisagem, Nessa foto, no horizonte, o sambaqui Laranjais em Jaguaruna – SC.

Os sambaquis

Sambaquis (shell mounds) montes de conchas pré-históricas ocorrem no mundo inteiro (América do Norte, Europa, África, Oriente) e também em diversos pontos do Brasil.

A antiga e simplista definição de que seriam apenas depósitos de conchas, uma espécie de ‘lixão’ dos povos pré-históricos já foi superada há bastante tempo, e hoje são vistos e estudados pelo que são: vestígios de uma civilização pré-histórica; porém o que motivou os povos pré-históricos a empilhar conchas e seus diversos propósitos, bem como sua complexidade e simbologia permanecem um mistério.

A quantidade de conchas que foi carregada para o alto do morro impressiona, dando um aspecto monumental nos vários sambaquis no entorno do Farol de Santa Marta, em Laguna – SC.

A intrigante quantidade, a semelhança de formas e aquilo que todos têm em comum, o uso de conchas, não nos diz muito sobre suas particularidades, e grandes diferenças, que de nenhuma forma segue um padrão de propósitos.

Conjunto de Sambaquis das Encantadas, em Jaguaruna – SC.

Alguns parecem ter sido utilizados para necessidades específicas, (mirantes?), (marcação de território?), alguns utilizados para moradia, outros não.

Alguns para habitação e sepultamento. Outros parecem somente para sepultamentos.

Um exemplo expressivo disto é o Sambaqui Jaboticabeira II em Jaguaruna, que estimativas sugerem que tenha em torno de 43 mil sepultamentos!

Isto nos fala tanto da demografia quanto do período extenso de ocupação no litoral catarinense.

Alguns destes sepultamentos com indícios de ritual complexo para assinalar a morte de alguns indivíduos sugere distinções e hierarquias que se presume também utilizadas quando vivo.

Um dos sambaquis de Santa Marta visto a partir das dunas, mas que é facilmente acessível pela estrada de acesso ao Farol, em Laguna – SC.
O incrível impacto visual ao se avistar o sambaqui da Lagoa dos Bichos do alto das dunas. Laguna – SC.
No alto dos sambaquis é possível fazer contato visual com vários outros da região. Esta foto à partir do alto do sambaqui Figueirinha avista-se os sambaquis: Encantas, Garopaba do Sul, Laranjais, e alguns do Santa Marta (esquerda para a direita),

No caso específico dos sambaquis do litoral sul do Brasil existe uma característica extraordinária que os torna um tesouro arqueológico único no mundo: A produção de esculturas.

As esculturas associadas a esta civilização

As esculturas encontradas nos sambaquis do Sul do Brasil são um rico tesouro arqueológico que os distingue de todos os demais sambaquis do mundo, pois em nenhum outro lugar esse povo deixou zoólitos e esculturas antropomorfas – a forma acadêmica de se referir a esculturas de animais e homens.

Esta civilização extinta nos legou involuntariamente um conjunto de esculturas em pedra e osso, com refinamento estético e sofisticação artística que ainda nos surpreendem e intrigam com o enigma de sua simbologia e utilização.

Algumas possuem um estilo realista a ponto de ter precisão nos detalhes de gênero; uma representa uma ação (uma cópula de pássaros). Um tubarão, um peixe platiforme possuem um impacto visual espetacular. Algumas peças em formato de ‘fuso’, outras mesmo não sabendo o que representam possuem uma elegância e pureza de linhas impressionante.

As que possuem formas geométricas de representação (onde os volumes geométricos predominam sobre a forma) nos espantam, pois, esteticamente nos parecem tão contemporâneas, mesmo sendo peças pré-históricas.

Enfim, de cada uma se pode extrair observações pertinentes.

Quase todas possuem uma cavidade. Mas algo que parece certo é que estas esculturas não eram só um recipiente, visto que as cavidades possuem profundidades muito rasas ou diminutas. Mas mesmo que fossem ‘recipientes’ o fato é que não eram meros enfeites.

Trata-se de uma manifestação de forte caráter simbólico. Um símbolo é uma comunicação. Qual o simbolismo disso, por enquanto é um enigma insondável.

Muitas destas esculturas ligadas a este povo fazem parte do incrível acervo dos três museus citados acima, que podem e devem ser visitados por todos. As imagens (que ilustram este texto) fazem parte do catálogo da exposição realizada no MAM em São Paulo, em 2016, e que reuniu peças de diversos acervos, além dos citados.

Um longo eixo de tempo

As datações realizadas revelam que a região foi continuamente ocupada por esta civilização (O Homem do Sambaqui) desde 6.000 AC. até o ano 1.000 DC. Ou seja, um período de tempo de 7.000 anos de ocupação.

Por 7 mil anos este povo habitou esta região!! Um eixo de tempo tão longo que é difícil até de imaginar. Basta pensar que desde que Cabral chegou por aqui só se passaram 520 anos.

Construir um sambaqui próximo de uma lagoa não é difícil de entender. Mas dizer o que de uma montanha de conchas no alto de um morro?!
Sambaqui nas dunas de Itapirubá

É preciso salientar que o que se chama de ‘homem do sambaqui’ é um grupo muito anterior aos índios que Cabral encontrou quando aqui chegou. Quando os europeus chegaram tiveram contato com grupos Tupis/Guaranis e ‘Tapuias’ (grupo Jê). Os Tupis teriam ocupado o litoral brasileiro por volta do ano 1.000 DC. Justamente o período que coincide com o fim da cultura sambaquieira.

 Os paralelos comparativos envolvendo o tempo são muitos e impressionantes. Por ex.: de acordo com as datações, o Sambaqui Figueirinha II já teria quase seu tamanho atual em 2.500 AC. Mesma época em que era concluída a pirâmide de Queóps, a maior das 3 pirâmides de Gizé no Egito.

As grandes pedras de Stonehenge na Inglaterra foram erguidas na mesma época em que o enorme Garopaba do Sul estava em plena atividade.

Mas tão ou mais impressionante do que a sua idade, é a permanência entre nós deste conjunto de Sambaquis que ainda marcam nossa paisagem e zombam do Tempo.

Os sambaquis, assim como as dunas, são ameaçados pela exploração imobiliária. Na foto, sambaqui Figueirinha II em Jaguaruna – SC.

O Tempo, que não sabe ficar…

Sentados no alto de um Sambaqui de 4 mil anos, olhando uma retroescavadeira abrindo um novo loteamento entre as dunas nos vimos enredados numa atmosfera diferente, que permitia simultaneamente refletir sobre o passado e projetar o futuro. Na verdade era um alerta do Tempo, nos mostrando que não deveria ser a perda, e sim o conhecimento que deveria que nos ensinar sobre a importância das coisas que nos rodeiam e fazem parte da nossa paisagem.

Obs.: Não somos arqueólogos, etnógrafos ou especialistas no tema. Somos apenas ciclistas e observadores da natureza. O presente texto tem por objetivo a divulgação deste patrimônio arqueológico e não o debate acadêmico.

Informações Complementares

Museus de Arqueologia e Antropologia de SC sobre o tema:

Museu do Homem do Sambaqui – Florianópolis

Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville – MASJ

Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC (MARQUE) – Florianópolis

Livros e artigos de referência:

Da pedra Da terra Daqui – 34° Panorama da arte brasileira –Livro da Exposição no MAM/SP. Curadora – Aracy Amaral.

As esculturas de pedra (zoólitos) e de osso dos sambaquis do Brasil Meridional e do Uruguay. Autor: André Prouss.

Sambaquis e Paisagem – Dinâmica natural e arqueologia regional no litoral sul do Brasil. Autores: Paulo DeBlasis, Andreas Kneip, Rita Scheel-Ybert, Paulo César Giannini, Maria Dulce Gaspar.

Em busca dos frutos do mar: os pescadores-coletores do litoral centro-sul do Brasil. Autora: Tania Andrade Lima.

Longa duração e territorialidade da ocupação sambaquieira na Laguna de Santa Marta/SC. Autores: Andreas Kneip, Deisi Farias, Paulo DeBlasis.

Artefatos zoomorfos sambaquieiros do estado de SC: considerações acerca do tema. Autores: Jefferson Batista Garcia, Dione da Rocha Bandeira.

Brasil Rupestre – arte pré-histórica brasileira. Autores: André Prouss, Marcos Jorge, Loredana Ribeiro.