Litoral Gaúcho de bicicleta: Travessia do Litoral Médio de fat bike.

Por Vânia Elza e Bóris Corrêa

 “Podem esquecer, não vão conseguir atravessar. Não vão encontrar ninguém lá. É época do defeso do camarão, e não tem ninguém na Barra. Já peguem o desvio antes.” 

Ainda com essas palavras desencorajadoras na cabeça, proferidas por um atendente de um mercadinho na distante São Simão, avistamos bandos enormes de pássaros e uma vila deserta. Havíamos chegado na Barra da Lagoa do Peixe

A Barra, além de santuário de aves costuma ser um obstáculo para os que se aventuram a percorrer o Litoral Médio Gaúcho pela praia.

O pouco conhecido Litoral Médio Gaúcho é uma extensão de 270 km de praia, que vai desde o Balneário Dunas Altas até a Barra da Lagoa dos Patos, em São José do Norte. Esta parte do litoral que nos propomos a fazer em dois dias, com nossas fat bikes. 

Kairós

Pedalar o Litoral Médio Gaúcho era um projeto antigo, que já havíamos feito uma tentativa em 2019 (Ver Litoral Norte Gaúcho de Bicicleta). Três anos depois avaliamos os erros e acertos de nosso antigo projeto e após algumas correções e vários contatos mantidos ficamos aguardando o momento da partida.

Na mitologia grega Kairós era o Deus do momento oportuno. Do tempo certo.

Conhecíamos o temperamento do ambiente que iríamos pedalar (e várias histórias que não foram tão bem sucedidas na travessia do Litoral Médio) para saber que  a previsão do tempo deveria ser usada para traçar uma estratégia e não apenas para matar uma curiosidade. 

E foi assim, monitorando a previsão e conhecendo o regime de ventos da região que aguardamos o sinal de Kairós que nos indicaria o tempo e o nosso momento certo para finalmente partir com nossas fat bikes para o Sul. 

Dunas Altas

O Balneário de Dunas Altas tinha ficado em nossa memória associado com o fim do pedal no Litoral Norte,  onde embora tenhamos continuado o pedal, terminava ali aquele trecho do litoral. Deixando a parte mais difícil e complicada para uma outra oportunidade.

É ali em Dunas Altas que termina o Litoral Norte e começa o Litoral Médio, que só termina na Barra da Lagoa dos Patos em São José do Norte. 

E Dunas Altas tem algumas dezenas de casas, um clube e um farol. E acabou. 

Farol Berta

Na verdade, começou. 

Foi ali que iniciamos nosso pedal de travessia do Litoral Médio Gaúcho. A partir dali saímos com nossas fat bikes em um ambiente cada vez mais raro de se encontrar hoje em dia.

Farol Berta, em Dunas Altas

O Litoral Médio

A parte menos conhecida e mais extensa do litoral gaúcho fica localizada na península que separa a Lagoa dos Patos do Oceano Atlântico – uma estreita faixa de terra, pontilhada de dunas, lagoas e charcos e que dificulta o acesso de pessoas e veículos às praias, tornando a região um trecho bastante intocado do litoral.

A imensidão da praia, em estado bruto.

É praia quase em estado bruto, selvagem, sem estrutura. Um local para contemplar não a beleza dos balneários paradisíacos, mas a imensidão do mar, da praia, dos elementos que se interagem e se impõem. De sentir o vento forte e o mar áspero e imponente.

Pedalar nesse ambiente é interagir com isso tudo, de ver detalhes em uma paisagem que parece monótona. De descobrir beleza na natureza em estado bruto.

Uma gigante tartaruga de couro
O Mount Athos, um dos mais famosos naufrágios do litoral médio

O Litoral Médio e o vento

Nessa parte do Litoral sul do Brasil o vento pode soprar muito forte o que, juntamente com a maré, ajuda a definir as características da praia.

Basicamente, com vento nordeste a faixa de areia é larga e com um bom trecho de areia dura para pedalar e para veículos transitarem. Com vento de leste a sul a faixa de areia fica pequena, sobrando somente a parte fofa e que prejudica a pedalada.

Além de definir a faixa de areia, o vento também influencia na cor da água, que pode ser cor de chocolate e viscosa quando o Nordestão sopra forte ou eventualmente azulada quando sopra vento do quadrante sul.

O mar cor de chocolate aparece quando o nordeste sopra forte

É um trecho de litoral pouco povoado, esparsamente habitado, com pequenas vilas e balneários espalhados e bem distantes entre si. São locais de veraneio ou vilas de pescadores e muitas só são avistadas se olharmos com atenção, pois senão elas ficam para trás, escondidas na restinga.

As vilas de pescadores ficam camufladas na restinga
A trilha do Talhamar, que liga Mostardas à praia. Última saída antes da Barra da Lagoa do Peixe

Os pontos de acesso à praia se dão em alguns desses balneários e em outras poucas trilhas que cruzam as dunas. De resto, deve-se prosseguir pela praia que funciona como estrada quando o mar permite.

O vento carpinteiro e a Costa dos Esqueletos

Como todo o litoral do Rio Grande do Sul, o Litoral Médio é caracterizado por uma longa extensão de praia, sem costões ou abrigos naturais para embarcações. Ali o vento sopra diretamente, sem porto seguro. Mas tem um vento que é famoso pelo estrago que provoca: o vento carpinteiro.

A casinha de salva-vidas de São Simão

Um vento muito forte, de sudeste, que levanta e encrespa o mar, fazendo-o avançar em terra e que consome toda a faixa de praia. Um bramido forte que assusta e mantém acordados marujos e comandantes e que ao longo dos séculos tem provocado inúmeros naufrágios e acidentes marítimos. 

Foram tantos naufrágios ao longo da história, que rendeu o apelido de “Costa dos esqueletos brasileira” ou “Cemitério de navios” e os restos dessas embarcações podem ser avistados por toda a extensão do litoral.

Não bastasse todos aqueles restos mortais de embarcações em toda a extensão da praia também se pode avistar os cadáveres de uma grande quantidade de animais marinhos: baleias, tartarugas, doninhas, peixes. 

São tantos animais mortos que a gente se questiona o quanto disso é “morte natural” ou decorrente das inúmeras redes de pesca lançadas na faixa de praia ou dos lixos dos oceanos.

Terra de Faróis

Não sem motivo, toda essa extensão de praia sem abrigo do Litoral Médio forçou a marinha a instalar vários faróis ao longo da costa do litoral médio, para auxiliar as embarcações em caso de mau tempo. 

Farol da Solidão
Farol Conceição

Farol Berta, Farol da Solidão, Farol de Mostardas, Farol Conceição, Farol Capão da Marca de Fora, Farol do Estreito, Farol de Atalaia. São tantos faróis ao longo do litoral que os usamos como marcos que dividem trechos de nosso percurso e que poderiam render um texto só sobre eles.

Farol Capão da Marca de Fora. O “de dentro” fica na Lagoa dos Patos.

Foi com o nordestão soprando forte que pedalamos o primeiro dia, em uma grande e deserta avenida de areia e vento, num trecho de 118 km de pedal, saindo de Dunas Altas e finalizando na Vila do Farol, no litoral de Mostardas.

E foi na vila do farol de Mostardas que pernoitamos, com o facho luminoso vigiando e protegendo as embarcações que passam ao largo.

Farol do Estreito
Farol de Mostardas

Um belo obstáculo

O litoral médio é uma grande praia, quase contínua, mas que é interrompida boa parte do ano  pela Barra da Lagoa do Peixe, que impede a travessia de viajantes do litoral e os faz voltar e desviar um grande trecho quando essa está aberta.

Era nossa grande dúvida nessa travessia.

A Vila fantasma do Lagamarzinho

E foi assim, com essa preocupação, que acordamos bastante cedo, para ter tempo suficiente de conseguir algum meio de atravessar, pois ninguém mora ali.

Passamos pela vila fantasma de Lagamarzinho e avistamos grandes bandos de aves, a vila de pescadores do outro lado da barra, o parque da Lagoa do Peixe bem lá no fundo. Era um lugar que já conhecíamos bem de outras visitas na região Faltava atravessar a barra. (Não deixe de Ver: Um pedal de observação de aves no Parque da Lagoa do Peixe).

 “Podem esquecer, não vão conseguir atravessar. Não vão encontrar ninguém lá. É época do defeso do camarão, e não tem ninguém na Barra. Já peguem o desvio antes.”

E com essa frase na cabeça fomos nos aproximando de nosso grande obstáculo.

Andamos de um lado para o outro procurando um meio de atravessar. 

No local ainda sobrevivem algumas casas de pescadores, anteriores a criação do parque e que são os únicos que tem permissão para realizar a pesca de forma artesanal. Mas  a liberação da pesca é feita pelo ICMBIO em determinadas épocas do ano.

Eis que um pescador do outro lado nos avistou e sinalizou para que pegássemos um “caíco” estacionado na borda da lagoa. E sozinhos embarcamos e meio desajeitados chegamos no outro lado da barra.

A Barra da Lagoa do Peixe

Rindo da forma desengonçada que guiamos o pequeno barco, fomos calorosamente recebidos. E como velhos amigos, ficamos por ali um tempo conversando e conhecendo um pouco da vida dura naquele lugar tão especial.

Fomos muito bem  acolhidos pelos pescadores que estão ali tradicionalmente instalados e hoje lembram com saudades da vila, hoje fantasma, onde muitos se criaram. 

Num momento de nostalgia, falaram da escola que estudaram, num local onde hoje só tem ruínas e areia, da pequena vila que foi realocada em função da implantação do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, hoje um importantíssimo santuário de aves migratórias.

Nos despedimos com a promessa e a vontade de voltar.

(Não deixe da ver: Um pedal de observação de aves no Parque da Lagoa do Peixe)

A praia se vai a perder de vista

Assim que cruzamos a Barra da Lagoa do Peixe nos livramos da possibilidade de ter que retornar e fazer um desvio que iria frustrar completamente nosso objetivo de percorrer tudo pela praia em dois dias. 

O fato de estarmos agora “desatracados” desta possibilidade fez com que nos sentíssemos à vontade ao olhar a interminável praia deserta à nossa frente. 

Seguimos nosso pedal com a possibilidade real de executar nosso desafio, mas ainda tínhamos um longo percurso a percorrer. E sabíamos por experiências anteriores que se o caminho não se altera, as surpresas são algo que se pode esperar. Ainda mais em cento e quarenta quilômetros de praia desconhecida que tínhamos pela frente.

Um pedal de distância, um desafio físico e mental em um território totalmente novo para a gente. 

O tempo, o espaço, a distância

O Litoral Médio é uma interminável praia deserta, onde os grandes elementos que dominam a composição da paisagem não mudam, e a percepção de distância não está nos quilômetros percorridos nem no horizonte. Está no tempo. O tempo torna-se espaço, lugar.

Quem veleja ou já passou alguns dias no mar, num ambiente que aparentemente não se altera, sabe como é esta sensação: Passamos a observar as sutis variações no decorrer de longos períodos, pequenas coisas adquirem relevância, e nos sentimos inseridos no momento, no lugar, no tempo.

Por um longo trecho não encontramos ninguém na praia pescando, passamos Faróis solitários, várias carcaças de embarcações, vários animais mortos na praia. Passamos algumas casas de pescadores camufladas no meio da vegetação e que passam despercebidas em olhares menos atentos. 

Se não tivesse a sinalização, passaríamos sem perceber o balneário

O Balneário de Bojuru é assim, um aglomerado de casas perto do litoral, sem uma vendinha para comprar uma coca-cola. A cidade mesmo está alguns quilômetros distantes, à beira do trecho esquecido da BR-101.  Mas é por ali que as pessoas retornam para a praia depois do longo desvio por não terem cruzado a barra da Lagoa do Peixe. 

Saída para o Bojuru

A barrinha do Estreito

Num determinado ponto a praia ficou pesada. Sentimos que o vento já não nos ajudava e torceu de tal ponto que começou a nos prejudicar. Somada a quilometragem acumulada do dia anterior, sentimos o risco real de não conseguir vencer nosso desafio.

Foi assim que chegamos ao último ponto de saída da praia, na barrinha do Estreito. 

A Barrinha do Estreito, uma barra “secundária” de ligação da Lagoa dos Patos com o Mar. A “oficial” é entre Rio Grande e São José do Norte.

A barrinha é um “ladrão” da Lagoa dos Patos, uma ligação pequena, “não oficial” como a barra de Rio Grande, mas que dependendo das condições da praia e de chuva pode se tornar funda e forçar uma passagem por uma ponte alguns quilômetros adentro, na estrada de acesso.

Ali fizemos uma última avaliação e vimos que tínhamos tempo para terminar nosso pedal à luz do dia.

De longe já avistávamos os molhes da barra e os guindastes do Porto de Rio Grande

O Mar Grosso e a Barra de São José do Norte

Muitos quilômetros antes da Barra já começamos a avistar os guindastes da cidade de Rio Grande.

Mais um resto de naufrágio, outros animais mortos. 

A praia estava cheia de bolotas, e dessa vez era uma colônia inteira de águas-vivas ou mãe d´água que havia parado na orla.

Seguimos pedalando certos de nossa chegada, mas não sem antes parar no balneário de Mar Grosso para tomar a coca-cola sonhada – o Balneário de Mar Grosso era o primeiro povoado de verdade desde a vila do Farol, 140 km distante.

E finalmente, no meio da tarde, chegamos na Barra de São José do Norte em dois dias, como havíamos planejado.

Na barra, em São José do Norte
Farol Atalaia, de 1820, primeiro farol no litoral gaúcho
Farol da Barra de São José do Norte

Um novo olhar

Sentimos os efeitos que a geografia de um espaço exerce no psicológico de uma pessoa, onde a paisagem não muda; o olhar sim.  

O que transforma um local que aparentemente não tem uma beleza plástica que o senso comum espera de uma praia não é a experiência de conhecê-la, é a observação. 

É com a observação que percebemos a beleza da identidade deste litoral selvagem e deserto de dimensões espetaculares, com uma biodiversidade enorme. Paraíso de aves migratórias com um ecossistema fantástico de praias, dunas, restingas, charcos, lagoas e campos.

Informações Úteis:

Início do Pedal: Balneário Dunas Altas

Fim do Pedal: Barra de São José do Norte

Total pedalado: 270 km em dois dias com pernoite na praia do Farol de Mostardas

Registros no Strava:

Dunas Altas ao Farol de Mostardas

Do Farol de Mostardas à Barra de São José do Norte

A logística do Pedal

Não tem quem não pergunte como nos organizamos para fazer um pedal desses.

Estar bem treinado é essencial para vencer longas distâncias de modo eficiente. Também viajar com o mínimo de bagagem, para que o peso extra não prejudique o andamento do pedal.

Nos deslocamos de carro até Dunas Altas, onde iniciamos o pedal. O carro ficou ali.

No primeiro dia Saímos de Dunas Altas e Pernoitamos na Praia do Farol, em Mostardas. Foram 118 km.

No segundo dia foram mais 155 km, da praia do Farol até a Barra de São José do Norte, onde pernoitamos.

No terceiro dia fomos de bicicleta até São José do Norte e pegamos um ônibus para o norte até a entrada de Granja Vargas. Dali finalizamos de bicicleta novamente até Dunas Altas e pegamos nosso carro para voltar pra casa.

Escrito por

Natural de Florianópolis, onde vivo por opção e sou ciclista por diversão. Através da bicicleta encontrei uma forma de ver o mundo e me manter saudável. Todos os textos e fotos desse site são originais. É proibida a cópia ou reprodução total ou parcial do conteúdo aqui divulgado. Todos os direitos reservados.